terça-feira, 21 de maio de 2013

Exemplo de descrição de ambiente.

A fazenda


Pior fazenda que a do Espigão, nenhuma. Já arruinara três donos, o que fazia dizer aos praguentos: Espiga é o que aquilo é! O detentor último, um Davi Moreira de Souza, arrematara-a em praça, convicto de negócio da China; já lá andava, também ele, escalavrado de dívidas, coçando a cabeça, num desânimo...
Os cafezais em vara, ano sim ano não batidos de pedra ou esturrados de geada, nunca deram de si colheita de entupir tulha. Os pastos ensapezados, enguanxumados, ensamambaiados nos topes, eram acampamentos de cupins com entremeios de macegas mortiças, formigantes de carrapatos. Boi entrado ali punha-se logo de costelas à mostra, encaroçado de bernes, triste e dolorido de meter dó.
As capoeiras substitutas das matas nativas revelavam pela indiscrição das tabocas a mais safada das terras secas.
Em tal solo a mandioca bracejava a medo varetinhas nodosas; a cana-caiana assumia aspecto de caninha, e esta virava um taquariço magrela dos que passam incólumes entre os cilindros moedores.
Pioravam os cavalos. Os porcos escapos à peste encruavam na magrém faraônica das vacas egípcias.
Por todos os cantos imperava o ferrão das saúvas, dia e noite entregues à tosa dos capins para que em outubro se toldasse o céu de nuvens de içás, em saracoteios amorosos com enamorados savitus.

(Monteiro Lobato. Urupês.13.ed.,São Paulo: Brasiliense,1996,p.234-5)

Monteiro Lobato.



Exemplo de descrição de pessoa
NHÔ RUFA
Chamava-se Rufino o preto cuja
carapinha em desalinho a neve dos anos
manchara de branco. Não sei a sua idade, mas meu avô dizia que "Negro quando pinta tem três vezes trinta". Talvez
carregasse por noventa anos aquele
corpo magro e dolorido.
As pálpebras empapuçadas deixavam entrever, dos olhos, apenas um risco preto que mirava com ódio a meninada que o acompanhava e divertia-se às
suas custas.
A pele preta era opaca e sem viço,
próprio da idade avançada. Seu nariz
achatado parecia esborrachado. O lá-
bio inferior, bem vermelho e grosso, pendia desgovernado, dificultando a fala.
Os pés grandes e descalços, sempre inchados, permitiam-lhe apenas um
caminhar trôpego, arrastado e cansado. Usava um velho capote de cor indefinida, onde predominava o pó da estrada, e um chapéu de feltro, maltratado
pelas intempéries, tão deformado pela
falta de forro a ponto de parecer uma
tigela desabada sobre os olhos.
Trazia a tiracolo um bodoque (que
é um arco para atirar bolotas de barro)
e, no outro ombro, uma velha aljava de
couro, velha e encardida, repleta das
ditas bolotas de barro seco, sua arma
contra os meninos. Estes diziam que Nhô
Rufa tinha bicho-de-pé e gritavam de
longe, em coro:
— Bichento! Bichento!

(Dalva Ferreira Fanchim. Piraí do Sul, sua gente e suas
histórias. Curitiba: Imprensa da Assembléia Legislativa
do Paraná, 1984, p. 90.)


Apendemos que a redação descritiva é o ato e descrever o que se vê, e nela temos as seguintes características.
a. Denotativa: usa-se o termo dicionarizado.
b. Conotativa: usa-se termos metafóricos.






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